Era o fim da tarde e eu já não aguentava mais.
Mais de dez horas andando com a caixa nas costas, vendendo bala no sinal.
Os pés latejando, a cabeça pesada.
Só queria chegar ao ponto de ónibus, tirar os ténis e respirar um pouco, antes do último ónibus passar.
Foi aí que eu o vi.
Deitado perto da mureta da passarela, o corpo todo sujo de fuligem.
Tinha um plástico rasgado por cima e os olhos meio fechados.
Parecia cansado como eu estava.
Olhou quando eu passei, mas não se levantou.
Não pediu nada. Só olhou.
Sentei-me ali perto.
Abri um pacote de biscoitos que sobrou do dia.
Ofereci um.
Ele cheirou, comeu devagar.
Depois encostou-se a mim.
Não para pedir mais — só pra estar ali.
Fiquei algum tempo sem dizer nada, só sentindo a respiração dele no meu braço.
Então tirei o celular e fiz uma selfie, para registar aquele instante em que, mesmo sem ter nada, alguém me escolheu.
Desde então, ele vem comigo todos os dias.
Sobe na passarela, espera na sombra e dorme com a cabeça na minha perna.
Dei-lhe o nome de Fim — porque ele apareceu quando tudo parecia acabado.
Mas no entanto, virou começo.