Paizinho Querido

Assim vou repetindo enquanto as minhas lágrimas se misturam ao virado do feijão que tento comer, apesar do nó na garganta.
Paizinho querido, paizinho querido… Assim eu dizia enquanto os meus dedos contornavam o seu rosto.
O pai sempre nos encantou com o seu humor fino e inteligente…
– Então, pai, vamos viajar?
– Sim, eu e os meus sequazes.
Corremos ao dicionário para saber do que se tratava.
Sequazes: adeptos, admiradores.
Em nossa casa só entravam pessoas que fossem apaixonadas por ele. Assim vivíamos felizes, tentando adivinhar as suas vontades.
Nenhum programa poderia ser melhor do que ficar na sua companhia.
Até o momento político nos rendeu boas risadas.
Filha, a despesa é muito pesada pra você. Eu também quero trabalhar:
Mas, se quiser, podemos arrumar um servicinho de meio período, o que acha?
É, alguma coisa onde eu não precise de ler, pois a minha vista não anda boa.
– Ah, já sei: você poderia se candidatar na política. E a sua propaganda seria?
“Vote no dito, senão eu dou um grito!”
– Boa, Pai. E o que mais?
“Vote no Rangel pra comer pastel!”
No começo da doença, eu estranhei a sua lentidão para alguma actividade e disse:
– Vamos Pai!
Ao que ele respondeu, elegantemente:
Eu não estou com pressa.
Certa manhã ele me contava algo engraçado, e nós ríamos muito. Então ele disse:
Já pensou se no meio de uma gargalhada dessas a pessoa morre e, continua sorrindo dentro do caixão?
Garanto que no velório as pessoas vão ter que segurar a risada.
Assim era o meu pai, sempre bem humorado. Sei que não viverei nem um dia sem me lembrar de algum momento com meu querido Pai.